As várias possibilidades do medo

Um susto. Ou aquele calafrio gelado, que arrepia até a alma. Quem sabe, o horror que se cola às nossas vísceras, nos deixa mais irracionais do que já somos, injeta adrenalina em altíssima potência.

Somente em momentos assim, em que a própria sobrevivência está ameaçada, as pessoas revelam o melhor e o pior de si. Quando conhecemos de verdade heróis e vilões.

Claro que não seria diferente na ficção. Matéria-prima básica para toda e qualquer trama, o medo é um daqueles elementos indispensáveis que nenhum escritor, roteirista ou contador de histórias pode correr o risco de menosprezar.

Quer ver? O que seria do livro “A menina que tinha dons” se o seu autor, M. R. Carey, não colocasse o dedo direto na ferida ao deixar os seus personagens aterrorizados com a possibilidade de contraírem um vírus que os transformaria em zumbis? Quem não se identifica com o nosso temor de contrair alguma doença mortal e ainda sem cura?

zumbis

Para os personagens, é muito pior: eles estão em uma base militar distante e cercada de perigos, onde realizam testes com crianças especiais, encontradas vivendo entre os zumbis. O medo da contaminação beira ao desespero, com medidas que isolam as crianças de qualquer contato físico, seja colocando-as em celas individuais ou amarrando-as em cadeiras de rodas, sob a ameaça de armas, para serem levadas à sala de aula. Entre essas cobaias, está Melanie, uma menina de dez anos que sonha em ser amada como toda criança merece, em ganhar um sorriso, um abraço maternal que nunca pôde receber.

O livro traz ação, perseguições, reviravoltas e ataques zumbis sanguinolentos. Uma mistura doce e amarga, carregada de uma ironia que nos leva às mesmas reflexões dos personagens sobre o que é certo e errado, quem é herói e quem é vilão.

Já na série “Mestres da Maldição”, Holly Black trabalha com dois níveis de medo. Em sua realidade alternativa do nosso mundo, existem os mestres da maldição, pessoas que, com um simples toque, podem enfeitiçar os outros. O problema – e aí a autora usa e abusa do medo – é que gente comum como você e eu morre de medo de receber um simples toque de um mestre e, portanto, ser manipulada contra a vontade ou acabar morta instantaneamente. Na trama, um medo como esse gera preconceitos, intolerância, perseguições aos mestres, tentativas de controle por parte do governo e, principalmente, um movimentado submundo criminoso em que a violência esmaga o cotidiano.

Nesse contexto complexo, vive o esperto Cassel Sharpe. Integrante de uma família de golpistas e aluno de uma escola tradicional onde nem desconfiam quem ele seja de verdade, o rapaz só deseja viver a rotina de um adolescente comum, o que, em seu caso, é impossível, considerando todas as confusões em que acaba envolvido nos três ótimos livros da série, “Gata Branca”, “Luva Vermelha” e “Alma Negra”.

E é com Cassel que Holly explora o segundo nível do medo, o da rejeição, de não ser bom o suficiente nem para o bem nem para o mal, o que gera no rapaz conflitos éticos extremos sobre quem é realmente e quem gostaria de se tornar. E isso nas entrelinhas de uma aventura movimentada, narrada pelo próprio personagem, em situações que nem sempre são o que parecem ser. Como ele mesmo diz, “não se pode culpar as pessoas por preferirem mentiras”.

Por fim, temos a abordagem que Maureen Johnson escolheu para “O Nome da Estrela”, livro que recorre a um dos ícones das histórias de suspense e terror: Jack, o Estripador. Particularmente, gosto muito desse contexto de final do século XIX, tão presente em filmes como “Do inferno” e em séries de TV, como a inteligente “Ripper Street”. É uma ambientação que Maureen explora bem, mesmo que sua trama se passe nos dias atuais, com uma adolescente norte-americana, Rory, aprendendo a se virar entre britânicos em um colégio interno londrino.

jack-the-ripper

Quando os crimes de Jack começam a ser reproduzidos, a autora aproveita para dar ao medo um status pop. A nova ameaça pairando sobre Londres cria um clima de euforia entre os turistas e os moradores da cidade, de exploração sensacionalista pela própria mídia, com fãs ansiosos em vigília nos locais dos possíveis futuros assassinatos, seguindo os passos que o estripador deixou no passado.

A reação desses personagens está tão distante do que poderia ocorrer na vida real? Seria essa uma forma de se exorcizar o próprio medo? Ou tudo será sempre puro entretenimento para as massas? São questionamentos interessantes que Maureen coloca enquanto conta as desventuras de Rory no seu dia a dia até se descobrir com um talento que colocará a sua vida de cabeça para baixo.

Enfim, medo, sempre ele. Reação natural dos seres vivos, presente nas histórias, inevitável para o mundo. Porque ele testa e sempre testará os nossos limites. Nem que seja como leitores temendo pela sorte de nossos personagens favoritos.

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