Contos Mouriscos, finalista do Jabuti

Lutar ou fugir? Deixar tesouros para trás ou encantar alguém para tomar conta da riqueza até um possível retorno? Afinal, quem é herói e quem é vilão nessa história toda? Não há respostas simples em Contos Mouriscos, livro escrito por mim e pela Susana Ventura, finalista do Prêmio Jabuti na categoria adaptação.

contos-mouriscos

Trata-se de um livro construído a partir de histórias há muito contadas, todas influenciadas pela presença árabe do século VIII ao XIV na Península Ibérica, mas infelizmente um tanto esquecidas em seu país de origem, Portugal. E por que voltar a elas, então?

Para explicar melhor a questão, vou transcrever aqui o texto de apresentação do livro, escrito pela Susana.

“Vários são os motivos. Há belas narrativas que merecem ser conhecidas no Brasil, cujo tema comum é a guerra por questões religiosas — assunto bastante atual e centro de inúmeras polêmicas. Representam também uma contribuição ao universo do conto popular ibérico e, principalmente, nos trazem uma boa novidade: o Oriente e seu imaginário estavam presentes nesse trecho da Europa muito antes da febre causada pela publicação da versão de As mil e uma noites, por Antoine Galland, na França do século XVIII.

As lutas entre árabes e cristãos, islamismo e cristianismo, ainda ocupam — talvez especialmente hoje — as páginas de noticiários. Se a presença dos árabes (ou mouros, como ficaram conhecidos no período) foi marcante na Península Ibérica desde o século VIII, e esporadicamente bem antes disso, como a mente camponesa de centenas de gerações pensou a questão por meio de contos populares?

Especificamente em Portugal, a partir do século XIX, escritores, folcloristas e historiadores como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcelos, Consiglieri Pedroso e Ataíde Oliveira empenharam-se em recolher e publicar os relatos que ouviram por todo o país, colaborando para documentar esse rico acervo em que as personagens centrais costumam ser mouras encantadas, mouros desesperados, guerreiros cristãos e mouros que se envolvem em lutas sangrentas, e camponeses a quem são apresentadas possibilidades de riqueza ou de perdição.

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No século XX, Gentil Marques e Fernanda Frazão continuaram a recolher e recontar as histórias, adaptando-as aos novos gostos de leitura do público português. Finalmente, em anos recentes, uma das mais amadas escritoras portuguesas de livros para infância e juventude, Luísa Ducla Soares, descobriu, em visitas a escolas portuguesas, que já não havia quase lembranças de contos de mouras e mouros encantados. Por essa razão, coletou, coligiu e recontou contos do sul do país em publicação de 2006. Também foi nos anos 2000 que ocorreu o encontro e a publicação de um manuscrito de Almeida Garrett, com um belo poema narrativo sobre uma moura encantada numa fonte.

Passando para o campo da pesquisa científica, as mouras e os mouros encantados tornaram-se motivo para importantes estudos universitárias, como os conduzidos pelo professor e folclorista João David Pinto-Correia, e de recentes dissertações de mestrado e teses de doutorado, como os trabalhos de Carmen Helena Carepo Matos Vitor (Mestrado em Educação) e, especialmente, de Maria Manuela Neves Casinha Nova (Mestrado em Estudos Portugueses), bem como o doutorado de Alexandre Parafita, hoje disponibilizado em livro. No Brasil, a figura do mouro na literatura portuguesa vem sendo estudada em profundidade pela professora Carla Carvalho Alves (Doutorado em Letras).

Foram essas as referências de pesquisa que nos encantaram e nos levaram a sonhar um livro de contos mouriscos que revelasse esse Oriente presente nos contos populares portugueses, em seu imaginário próprio e fascinante, repleto de cavernas com palácios e tesouros, e mouras e mouros que esperam pela redenção e desejam a volta para a África de origem. Fomos apresentadas ao cotidiano vivo da guerra entre árabes e cristãos, e com a coragem requerida a todo o tempo.”

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