O direito de escolher o próprio final feliz

Geni Souza (*)

Depois do susto e da emoção com o convite da Helena Gomes para participar da coleção Contos e Contadoras, veio o momento de criar o segundo volume, Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa – Contos de fadas para pensar sobre o papel da mulher, que escrevemos juntas. A proposta era reunir neste livro nossas adaptações de contos de fadas que tivessem elementos para o leitor refletir sobre a situação da mulher.
Durante o processo de criação, por muitas vezes pude perceber que até eu mesma caía em armadilhas de estereótipos ou características de personagens já estabelecidos. Sempre gostei de escrever e reescrever, mas nunca tive antes esse contato com a realidade através dos contos de fadas. As histórias estavam ali, por inteiro, e eu achando que não tinha mais nada para falar sobre o assunto. Mas tinha! E como tem!

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Uma sardinha na brasa

Tutelada pelos homens através dos tempos, a mulher ainda hoje luta para reafirmar sua liberdade, apesar das conquistas obtidas nas últimas décadas. Em várias situações, sofre preconceitos e é vítima de violência simplesmente por ser mulher.
Nos contos de fadas, ela é a filha obediente ao pai, a esposa que nem sempre pode escolher o marido, a mãe sofredora, a madrasta malvada, a avó bondosa… Ou ainda a detentora de poderes mágicos que podem ser usados tanto para o bem quanto para o mal.

Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa_CAPA1
O livro “Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa”, escrito por mim e por Geni Souza, reconta textos que mergulham no universo feminino. Segundo volume da coleção “Contos e Contadoras”, da editora Biruta, traz uma ótima oportunidade para refletirmos sobre os vários papéis da mulher na sociedade, seus questionamentos e, principalmente, a busca por sua identidade como ser humano.

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Quando um conto encontra outro

Em voz alta, leia o mais rápido que puder e, sem pegar fôlego, assobie ao final:

“Hoje é domingo
Canta o pintassilgo
Pintassilgo é dourado
Não tem sela nem cavalo
É uma burrinha cega
Que vai daqui a Castela
De Castela a castelão
Minha avó me deu pão
Pra mim e pro meu cão
Meu cão não está aqui
Está debaixo do navio
Dá-lhe vento, dá-lhe frio
Ele toca o assobio”

E então? Conseguiu?

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As vantagens invisíveis de ser você mesmo

Suicídio.

Uma palavra temida e preocupante apenas por ela mesma.

Se na vida real traz sofrimento em tantos sentidos, na ficção é um recurso – e dos bons – para os autores. Que o diga Jasmine Warga em seu romance de estreia, Meu coração & outros buracos negros.

vantagens

A autora norte-americana foi além da utilização do tema como costumeiro ponto de partida ou de encerramento ao transformá-lo em fio condutor e quase um personagem em sua história. Nela, a jovem e problemática Aysel não aguenta a própria existência e não consegue se comunicar nem consigo mesma.

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As várias possibilidades do medo

Um susto. Ou aquele calafrio gelado, que arrepia até a alma. Quem sabe, o horror que se cola às nossas vísceras, nos deixa mais irracionais do que já somos, injeta adrenalina em altíssima potência.

Somente em momentos assim, em que a própria sobrevivência está ameaçada, as pessoas revelam o melhor e o pior de si. Quando conhecemos de verdade heróis e vilões.

Claro que não seria diferente na ficção. Matéria-prima básica para toda e qualquer trama, o medo é um daqueles elementos indispensáveis que nenhum escritor, roteirista ou contador de histórias pode correr o risco de menosprezar.

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De volta para o futuro: Marty McFly e outros viajantes do tempo

Há mais de trinta anos, eu embarcava na minha primeira viagem no tempo. Claro que eu tinha visto outras viagens desse tipo na adorada série de TV da minha infância, “O túnel do tempo”, e também em filmes, como o primeiro “O exterminador do futuro” e a produção cult de 1960 “A máquina do tempo”. Agora, embarcar mesmo, para valer, de mala, cuia e muita imaginação, só aconteceu em 1985.

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Na época, eu era adolescente e já apaixonada por filmes. Lembro que saí do cinema me sentindo igual ao personagem Marty McFly: ele acabava de vir de uma fascinante viagem a 1955, onde conheceu seus pais ainda jovens, arrumou muita confusão, apresentou-se numa banda tocando guitarra, resolveu os problemas para melhor e, com a ajuda de um cientista exagerado, conseguiu sobreviver ao engenhoso clímax principal do filme para regressar ao seu momento presente, em 1985. Diga-se de passagem, um clímax que para mim ainda é uma obra-prima.

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Contos Mouriscos, finalista do Jabuti

Lutar ou fugir? Deixar tesouros para trás ou encantar alguém para tomar conta da riqueza até um possível retorno? Afinal, quem é herói e quem é vilão nessa história toda? Não há respostas simples em Contos Mouriscos, livro escrito por mim e pela Susana Ventura, finalista do Prêmio Jabuti na categoria adaptação.

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Trata-se de um livro construído a partir de histórias há muito contadas, todas influenciadas pela presença árabe do século VIII ao XIV na Península Ibérica, mas infelizmente um tanto esquecidas em seu país de origem, Portugal. E por que voltar a elas, então?

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